ENTREVISTAS

Alckmin tem de responder por crise da água na Justiça, afirma SINTAEMA

Para presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Água e Esgoto, Renê Vicente dos Santos, falta transparência em relação à crise

Para o presidente do Sintaema (Sindicato dos Trabalhadores em Água e Esgoto de São Paulo), Renê Vicente dos Santos, o governo do Estado, encabeçado por Geraldo Alckmin (PSDB), é o único responsável pela crise hídrica atual. Tanto que a entidade está se reunindo com outras organizações, como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), para ingressar na JustiALCKMIN TEM DE RESPONDER POR CRISE DE ÁGUA NA JUSTIÇA, AFIRMA SINTAEMAça com uma ação civil pública impondo que o Estado assuma a culpa pela escassez dos reservatórios. Para Santos, falta transparência em relação à real situação da crise da água em São Paulo, onde o governo apostou todas as fichas em um período de chuvas que não aconteceu. Leia abaixo a entrevista:

ABCD MAIOR – Na sua opinião, como o governo do Estado tem gerido a crise hídrica e a possibilidade de faltar água para a população?
Renê Vicente – Na minha opinião está faltando transparência com relação à real situação da crise da água em São Paulo. Mesmo que a imprensa tenha mostrado os problemas e as ações que vêm sendo tomadas, e o governo estadual tem procurado alternativas e financiamentos com o governo federal, é preciso mostrar para a população que estamos na iminência de um colapso no maior sistema de abastecimento da região metropolitana, o Sistema Cantareira, responsável por 45% do abastecimento, o que representa 9,5 milhões de pessoas. O Cantareira está chegando ao nível drástico de seca. Enquanto isso, o governo estadual aposta todas as fichas em um período de chuvas que não aconteceu. Na verdade, durante o período eleitoral o governador Geraldo Alckmin afirmou que não faltaria água para a população. E não é isso o que estamos vivenciando.

As multas para quem exceder o consumo de água são uma prática viável neste momento?
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O que está ocorrendo é que parece que a falta d’água acontece por culpa da população, pelo mau uso da água. Porém, o que acontece é que a Sabesp, nos últimos anos, tem se voltado a atender o mercado, ou seja, a Bolsa de Valores e o mercado de ações. A empresa tem remetido lucros exorbitantes aos acionistas. Só no ano passado foram em torno de R$ 600 milhões mandados para os acionistas, sendo que esse dinheiro poderia ter sido usado para a busca de novos mananciais, construção de novos reservatórios, no tratamento melhor dos nossos mananciais. A Sabesp tem priorizado atender o mercado privado, o lucro dos acionistas. A companhia educou a população a consumir. Dentro de uma lógica capitalista, a Sabesp incentiva o consumidor a usar mais, para que a empresa arrecade mais. Tendo em vista todos os anos em que a empresa registrou grandes arrecadações, esse dinheiro foi usado para aumentar ainda mais o lucro. A companhia leva água tratada para mais pessoas, mas a preocupação é com o hidrômetro, pois assim consegue cobrar da população pelo uso da água. Esse é o viés que a empresa investiu nos últimos anos e que acarretou na atual crise de falta d’água.

O governador anunciou recentemente a construção de novos reservatórios. Na sua opinião, esses tanques vão minimizar a gravidade da crise hídrica?
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O problema é que qualquer uma dessas obras vai levar mais de 12 meses para ser implantada. Vamos passar mais de um ano com os sistemas atuais, que estão com os níveis baixos. A oferta de água será a mesma e teremos de torcer muito para chover bastante. Existem estudos que mostram que o Cantareira vai precisar de mais de cinco anos, aproximadamente, para recuperar o nível normal. Além disso, vamos enfrentar um período sério de estiagem entre abril e junho, que é quando termina o período de chuvas. As chuvas nesse período são menores, teremos de economizar água no momento. É preciso ter um controle social. Porém, até agora a Sabesp não apresentou um sistema de contingência, para mostrar como serão abastecidos hospitais, presídios e escolas em caso de racionamento.

O racionamento será uma técnica a ser praticada na Grande São Paulo?
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A Sabesp tem de oficializar o rodízio. Essa prática já acontece de forma disfarçada. O governo  coloca sistematicamente que controla a pressão por válvulas reguladoras. Mas o que acontece é que os registros estão sendo fechados à noite e abertos durante o dia. Tem bairro em São Paulo que quando são duas horas da tarde as casas já não têm água nas caixas. O governo tem de falar a real para a população. Apresentam a possibilidade de implantar o rodízio 5×2 (cinco dias sem água e dois com). Aquele cidadão que não tem condições de ter uma caixa d’água maior, como é que ficará? É uma situação crítica e a população tem de ficar sabendo o risco real que corre.

É possível argumentar se o governo está em situação de desespero diante do atual cenário?
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É uma indicação de que a situação não é das melhores. No nosso ponto de vista, o racionamento deveria ter começado em janeiro do ano passado, mas de forma transparente. As pessoas deveriam ser avisadas dos horários e locais onde faltaria água. Com o aprofundamento da crise, o rodízio poderia ser de metade do dia com água, metade sem. Mas tratando isso de forma clara com o público. A Sabesp, porém, foi protelando, esperando que as chuvas repusessem os níveis dos reservatórios. Demonstra, nesse caso, um desespero do governo do Estado.

O sindicato pretende se posicionar ante o governo estadual de forma mais prática?

– Temos buscado alertar a população sobre o risco que corre em ficar desabastecida. Além disso, no campo trabalhista, alertar os trabalhadores e mostrar a importância desses trabalhadores na área de saneamento. Estamos conversando com a OAB e outras entidades para entrarmos na Justiça com uma ação civil pública para que o governo do Estado se responsabilize pela crise hídrica.

Fonte:

ABCD Maior

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