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Crise hídrica: Medidas tardias e insuficientes para solucionar crise

Obras como a transposição do Paraíba do Sul já são previstas há anos, mas só devem ser concluídas entre 2016 e 2018

Passados quatro meses da reeleição de Geraldo Alckmin ao governo paulista, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) intensifica sua divulgação sobre a crise hídrica e divulga medidas que ajudariam a resolver a questão pontual e futuramente. Entretanto, todas, sem exceção, vêm com atraso no momento em que a população vive na iminência de ficar com as torneiras vazias, de acordo com especialistas consultados pelo iG. Além disso, apesar dos altíssimos custos, algumas das obras anunciadas podem se provar insuficientes para lidar com o problema, uma vez que dependem de chuvas.

“Simplesmente não temos qualquer segurança hídrica no Estado e no País. Estamos à mercê do clima”, afirma Antônio Carlos Zuffo, Chefe do Departamento de Recursos Hídricos da Universidade de Campinas (Unicamp). “A engenharia, hoje, provê obras para amenizar os efeitos da falta de água. Mas quando se chega ao colapso de todo o sistema, como estamos vendo nos reservatórios que abastecem o Estado, acabamos tendo de depender das chuvas. Estamos seguindo o caminho da tragédia.”

Para enfrentar a crise, a Sabesp adotou medidas pontuais, além de um planejamento para médio e longo prazo. Neste mês, a companhia já começou a aplicar multas para quem exceder o consumo, que se aliam à prática de fornecer bônus na conta àqueles que diminuírem o uso, prorrogada até o fim de 2015. As ações devem ser reforçadas com a instalação em todas as residências atendidas pela estatal de economizadores nas torneiras, responsáveis por reduzir o volume consumido em até 20%.

Segundo os especialistas, as medidas são positivas, mas, assim como as obras anunciadas pelo governo, se apresentam tardiamente em um Estado à beira do colapso em seu abastecimento. A iminência da crise hídrica é conhecida há pelo menos dez anos, quando estudos demonstraram que os reservatórios de armazenamento dos sistemas vinham retirando mais água do que o recomendado. Em 2013 ficou claro que a situação só havia piorado com o passar dos anos. Em janeiro daquele ano, o Cantareira apresentava 48,8% de sua capacidade de armazenamento – índice bastante inferior à média de 67% para o período. No mesmo mês de 2014, a porcentagem caiu para 27,2%.

E a realidade só piora: neste mês de fevereiro, o Cantareira começou com volume negativo de 24,5%, excluindo as três cotas de volume morto com as quais a Sabesp faz seus balanços (com elas, o volume é de 5,1%). Recentemente, a estatal chegou a admitir pausas na distribuição de água que podem chegar a cinco dias, caso a atual temporada de chuvas siga com precipitações abaixo da média, como tem ocorrido atualmente.

“O cenário que os estudos apontam é que a segunda reserva técnica do Cantareira deve acabar entre março e abril. A terceira, lá para outubro, quando talvez voltem as chuvas. A ideia de um racionamento é garantir que o recurso chegue para todo mundo, que ele não acabe. Mas desde setembro de 2013 a Sabesp vinha retirando do viável. O quadro da crise já estava configurado e o governo foi empurrando com a barriga”, critica o professor José Roberto Kachel, sanitarista e membro do Comitê da Bacia Alto Tietê. “O governo exalta o sucesso que foi a redução de consumo em São Paulo com a aplicação dos bônus e da redução de pressão. Mas isso é balela, porque ele não conseguiu evitar o colapso: mesmo com as medidas, o Cantareira vai esvaziar.”

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